'Tenho hipóteses de ir à universíada e lutar por uma medalha' - Eliana Bandeira

Aos 18 anos atravessou o Atlântico sozinha em busca de um sonho. Hoje, com 24 anos e algumas conquistas no lançamento do peso, todos os sonhos parecem pequenos para a persistência de Eliana Bandeira. Prestes a terminar o curso de Serviço Jurídico, é recorde nacional universitário e ambiciona ganhar uma medalha nos Jogos Mundiais Universitários.

 

 

És brasileira, estás em Portugal há cerca de seis anos, como se deu essa mudança?

Eliana Bandeira (EB) - Ainda no Brasil decidi que precisava ter uma experiência como atleta profissional, foi isso que me motivou a procurar um contacto em algum país da Europa, e Portugal surgiu também pela facilidade da língua. Enviei e-mail a alguns clubes em Portugal, sabia que havia o SL Benfica, o Sporting e a Juventude Vidigalense. O Paulo Reis foi quem acabou por me responder e foi assim que o nosso primeiro contacto surgiu. Vim com 18 anos pela primeira vez, três meses que foram uma espécie de training camp. Nesse primeiro contacto eu disse ao Paulo que era o que queria e que voltaria de vez. Ele duvidou um pouco porque não imaginava que uma miúda de 18 anos estivesse determinada a deixar a família e o país. Em 2016, no fim dos Jogos Olímpicos, eu fiquei a treinar de forma profissional, passando a ser a única atleta dele.

 

A vida do desporto surgiu por influência familiar ou algo do género?

EB - Foi uma escolha minha porque não tenho nenhum praticante de desporto na minha família, e até acredito que foi o desporto que me escolheu. O universo conspirou a meu favor, porque tenho uma estrutura física muito acima da média, com 15 anos já tinha 1,75m e isso favoreceu.

 

Como foi o teu percurso até te especializares no lançamento do peso?

EB - Sempre fui uma miúda ativa, fazia de tudo um pouco, voleibol, basquetebol, futebol, fosse na escola ou fora. A certa altura, tive a oportunidade de fazer um teste no atletismo, comecei por fazer heptatlo e quando vim para Portugal na primeira vez, acabei por me especializar nos lançamentos, sendo uma coisa gradual, uma paixão que foi crescendo. Eu já tinha estrutura e condição física enquanto praticante de heptatlo e foi o Paulo Reis que me levou a escolher os lançamentos, pela forma como trabalhava.

 

E no meio desta aptidão para o desporto, conseguias levar os estudos com igual seriedade?

EB – Era uma excelente aluna, e se estou aqui hoje é também por conta de uma bolsa da universidade. Quando eu comecei no atletismo já estava a terminar o secundário, e fizeram-me uma proposta para um teste em que, se eu fizesse um resultado mediano naquele ano, recebia uma bolsa universitária para uma faculdade particular, com tudo pago. Isso foi mais uma motivação. Na escola eu recebia prémios por bom comportamento, por projetos, estava sempre envolvida em grupos de estudo, sempre tive gosto em estudar. Não é à toa que eu não pensava na altura tornar-me atleta profissional, tirar sustento disso. A prioridade era a universidade, para manter a bolsa de estudos. Até que vi que o desporto começava a dar frutos, deixei lá os estudos e comecei do zero cá.

 

Entraste em Educação Física na Universidade de Fortaleza…

EB – Cheguei a fazer um semestre de Direito em Fortaleza e acabei por mudar, porque me fui profissionalizando e tendo mais curiosidade sobre a área do desporto, sobre aquilo que estava a fazer e o que podia fazer para chegar a um patamar ainda mais elevado. Foi por isso que optei por ir para Educação Física. Cheguei a fazer quatro semestres lá, mas não deu para continuar porque tive de decidir se vinha para Portugal ou se continuava lá para segurar a bolsa universitária. Não me arrependo da decisão.

 

E como reagiu a tua família a esta decisão?

EB – Eles não aceitaram muito bem. Mas a verdade é que saí de casa com 12 anos, não morava com os meus pais porque eles estavam no interior e eu fui morar para a capital, Fortaleza. Tornei-me muito autónoma desde essa altura, mas é claro que, por respeito, avisei os meus pais e os meus familiares. Todos foram contra. Eles achavam que era uma loucura eu ir para um país desconhecido, que eu podia estar a desperdiçar a oportunidade que tive com a bolsa, na melhor universidade do Estado do Ceará. Fazia sentido, mas eu não pensava tão pequeno, a opinião deles estava limitava aquela região. Mas eu acabei por ser um pouco rebelde e hoje eles reconhecem o mérito, sabem que se não fosse assim talvez não estivesse no patamar onde estou hoje.

 

E não sentem alguma pena por vestires as cores de Portugal e não as do Brasil?

EB – Não, essa nunca foi uma questão por parte dos meus familiares. Os amigos sim, alguns perguntam porque não continuei no Brasil. O que eu lhes digo é que não sei se lá chegaria a este nível. Portugal abriu-me as portas e deu-me oportunidades, reconheço isso e tenho um sentimento de gratidão enorme e nem me passa pela cabeça neste momento querer representar o Brasil no futuro. Tenho orgulho no País onde estou, das pessoas que conheci e com quem me cruzei.

 

 

Em Portugal, acabaste por ir para um outro curso no Politécnico de Leiria…

EB – A certa altura decidi que tinha de entrar nalgum curso, nem que fosse só para conhecer o sistema e ter experiência. Optei por Gestão de Negócios Internacionais porque eu, em paralelo, sempre estive envolvida em negócios da família e gostava muito dessa área. Durante o curso vi que não era bem aquilo que eu queria e acabei por mudar para Serviço Jurídico para fazer solicitadoria e já estou a terminar, falta apenas entregar o projeto final da curso. Estou a terminar justamente no último ano em que posso participar nas universíadas, que é até aos 25 anos.

 

Falemos nesse teu objetivo…

EB – O meu objetivo principal é ir aos Jogos Olímpicos e em segundo vêm as universíadas [agora denominadas de Jogos Mundiais Universitários]. Tenho noção de como poderá ser, o meu treinador vai-me atualizando das marcas que ganharam medalhas nos anos anteriores e sei que estão dentro do meu nível. Tenho hipóteses de ir à universíada, dar o meu melhor e lutar por uma medalha.

 

Quem conheça um pouco a tua história, além de não passar ao lado da tua resiliência, fica com ideia de que conciliar o desporto com os estudos é simples.

EB – Se me perguntassem se era fácil quando estava no Brasil, diria que não. Era impressionante. Não sei se pela correria do dia a dia, ou se por tudo lá ser muito distante e perder-se muito tempo nas deslocações… tornava-se cansativo. É difícil encontrar lá um atleta profissional que esteja na universidade. Quando eu vim para cá fiquei impressionada, não sei se por estar em Leiria, onde tudo se faz. Conciliar o desporto com os estudos, aqui não foi difícil. Agora estou a dar prioridade aos meus treinos e conto lá para julho dar seguimento ao meu projeto. É prazeroso levar os estudos e o desporto porque às vezes acabamos por nos massacrar de mais, e estudar ou fazer alguma coisa em paralelo com o deporto é bom para desopilar.

 

Fala-me um pouco da tua participação recente no CNU de Atletismo pista coberta e do recorde nacional universitário que bateste, mas com o qual não ficaste assim tão satisfeita…

EB – Optei por participar no CNU nesta altura por estratégia, porque no verão vou estar em estágio e não poderei participar [no CNU de Atletismo pista ar livre]. A marca que fiz ficou longe do meu nível porque fui lá para cumprir e seguir o calendário que tracei com o meu treinador. Confesso que deveria ter sido um pouco mais humilde. Sabia que não ia bater o meu recorde pessoal, mas também não queria fazer má figura. E depois cheguei lá, vi que o campeonato estava a ser transmitido e a um bom nível em termos de visibilidade e eu, com treinos durante toda a semana, não estava no meu pico de forma. Terei oportunidade de bater o meu próprio recorde na universíada e vou fazer por isso!

 

Mudaste da Juventude Vidigalense para o SL Benfica em 2019, o que te trouxe essa mudança?

EB – Trouxe-me uma motivação ainda maior. Fui pela Juventude Vidigalense aos europeus em Berlim e logo após isso, o SL Benfica fez-me o convite para fazer parte da equipa. Significou muito por ser um clube com um reconhecimento nacional e internacional, e é uma honra representá-lo em todas as competições. Continuo a treinar em Leiria e vou muitas vezes a Lisboa fazer exames médicos, é lá que tenho consultas com nutricionista, psicólogo, esse tipo de acompanhamento.

 

Que conquista mais te marcou no percurso até aqui?

EB – A minha ida ao Campeonato Europeu em 2018. Foi uma competição prazerosa, tal como foi quando me sagrei campeã nacional pela primeira vez, ou quando fui medalha de bronze na taça da Europa de Lançamentos há três anos, em Leiria, que foi quando representei Portugal pela primeira vez. Foi um momento épico. O próximo será quando me tornar atleta olímpica, o próximo passo na minha carreira.

 

E o que gostas de fazer nos teus tempos livres?

EB – Gosto bastante de ler e, nos últimos tempos gosto de fazer caminhadas e dar passeios em lugares diferentes, com a família, no caso com o meu namorado e a minha sogra que me ajudam a passar este período de pandemia. Gostei de ir às ilhas Berlengas, é um lugar espetacular, umas mini Maldivas em Portugal!

 

Que pessoa ou pessoas te marcaram de alguma forma e porquê?

EB – São tantas… mas a pessoa que me vem logo à mente é o Paulo Reis, que me deu a oportunidade de estar aqui hoje. Outra pessoa que também me ajudou muito, e que é uma grande amiga e empresária – pagou-me a passagem para eu vir para cá – e chama-se Marise. Hoje em dia tenho uma pessoa que é primordial na minha vida e que se chama Tiago Silva, que é o meu namorado e noivo. São pessoas que contribuíram para o meu sucesso pessoal e profissional.

 

Que sonhos te faltam realizar?

EB – Ser olímpica! Fora do desporto, quero ter estabilidade financeira, as coisas acabam por estar todas relacionadas, continuar na universidade para depois seguir solicitadoria/direito e, na minha vida pessoal, continuar a minha relação com o Tiago.

 

Treinador acredita no sucesso em Chengdu

Treinar a Eliana desde final de 2015 ‘tem sido um bom desafio’ para o treinador, Paulo Reis. Veio a Portugal para se testar e voltou definitivamente pouco tempo depois. ‘É uma jovem dotada, tem uma estrutura física que se enquadra no perfil da lançadora de peso, é alta, forte, tem boa envergadura. Depois é empenhada, ambiciosa e confiante’. Esse empenho e ambição são atestadas pela decisão de deixar o seu país natal e a família. ‘Não é fácil e arriscou tudo’ reforçou o treinador, que lhe destaca a ‘personalidade forte’ e a descreve como uma pessoa que ‘gosta de ter o seu espaço e domínio nas coisas, sendo também uma pessoa algo reservada em termos de dinâmica de grupo’. Depois de ter batido o recorde nacional universitário com a marca de 15,76, em Pombal, no início de março deste ano, o treinador augura algo de bom para os Jogos Mundiais Universitários de Chengdu, previstos para agosto deste ano: ‘tem potencial para ser bem-sucedida’.

 

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