Doutora Chang e a paixão pelo badminton

Polo verde, saia preta, ar concentrado e um olhar rasgado que faz a diferença. A Mariana Chang veste as cores da Universidade Nova de Lisboa nas competições universitárias e o Campeonato Nacional Universitário de badminton, seja individual ou equipas, já não é o mesmo sem ela. Estudante de medicina, atleta e treinadora de badminton, a Mariana é também uma menina de 22 anos, com origens dispersas e um mundo por descobrir.

 

 

A Mariana tem raízes asiáticas, a família é originária da China. O período conturbado vivido durante a guerra civil que o país atravessou na década de 40 levou os avós dos dois lados a mudaram-se para Moçambique, onde havia uma vasta comunidade de chineses. Foi aí que os pais se conheceram, antes de soprarem os ventos da liberdade de abril, e rumarem à capital lisboeta. O pai formou-se em arquitetura e engenharia civil, e atualmente desenha rotas de controlo de aviões na NAV. A mãe trabalha no Instituto Nacional de Estatística (INE). A infância foi feliz, rodeada de muita família, onde se contam mais dois irmãos. O mais velho chama-se Pedro, licenciou-se em arquitetura, e também já passou algum tempo de raquete na mão. ‘O badminton vem dos nossos pais e avós porque na China, como cá há os campos para jogar futebol um pouco por todo o lado, lá eles jogavam badminton nos jardins’, confidenciou a estudante-atleta que tem no núcleo familiar o seu porto de abrigo, algo que se evidenciou quando Pedro foi trabalhar para a Bélgica, onde permaneceu durante três anos. ‘Quando ele voltou senti como é bom estarmos outra vez os cinco à mesa e nem sabia que sentia falta disso’, admitiu. Com um seio familiar pautado pelo equilíbrio e presença parental, o tempo livre passa também pelos programas caseiros.

 

A Mariana gosta do tempo que passa em casa, por vezes a cozinhar. E há uma especialidade? ‘Risoto!’, responde de pronto o irmão caçula, João Chang, como quem saliva pela especialidade lá de casa. Entre tachos Mariana dá aso à imaginação e confessa que não segue receitas porque o que gosta mesmo é de ‘inventar com o que há’, é fã da comida bem condimentada e do processo criativo que acontece pelo meio. Na infância os pais estavam atentos à alimentação regrada dos filhos e isso fez com que esse hábito ficasse, mas sem fundamentalismos. ‘Às vezes fazemos uma refeição menos saudável, quando não nos apetece cozinhar, mas é só de vez em quando’. No plano das sobremesas o destaque vai para a baba de camelo ou… o pastel de nata? As duas colhem a preferência das suas papilas gustativas, tanto que deu direito a uma pergunta, via WhatsApp, de fundamental importância: ‘Posso mudar a minha sobremesa preferida para pastel de nata? Lembrei-me’. Leves traços de um sentido de humor que pode passar despercebido aos mais desatentos.

 

Além das iguarias, a jovem atleta da NOVA gosta de turismo de natureza e confessa que gostava de conhecer melhor os encantos e recantos de Portugal, muitos deles ainda por descobrir. ‘Gosto de ir passear, sair de casa, fazer alguma coisa. Ir à praia, descobrir um trilho novo e diferente. Gosto de aproveitar o tempo para fazer coisas novas e fugir à rotina. Cheguei à conclusão que posso viver estas coisas ao longo do ano e não apenas quando acaba o semestre e no verão. Só tenho de me organizar para isso’. O Gerês, a região do Douro e os Açores já ganharam um lugar especial e a pandemia fez com que tivesse mais tempo para explorar os meios mais afastados da grande cidade, dentro de portas. ‘Gosto da calma desses sítios, não há pressa para nada, não há carros sempre a passar, estamos ali só nós’. Quanto ao mundo digital, declara-se pouco viciada e brinca até com o facto de os pais serem mais ligados ao telemóvel do que os filhos.

 

Os estudos, a medicina e a honestidade intelectual

 

Na família há muito quem tenha escolhido tratar da saúde alheia, ainda que não seja no núcleo familiar. ‘O meu pai tem cinco irmãs e cada tia minha tem uma filha que é médica’, estando ela a menos de três anos de se tornar doutora. ‘Não gosto muito que me tratem assim, é muita responsabilidade. Se me quiserem tratar por pré-doutora Mariana eu aceito’, confessou com diversão na voz. Além de seguir a onda das primas, confessa que viveu permanentemente na idade dos porquês relativamente aos fenómenos do corpo humano. ‘Sempre tive fascínio por saber como o corpo funciona em termos de doenças, sempre fui aquela rapariga de querer saber como é que as coisas acontecem’. Ciente de que o seu futuro passa por muitas responsabilidades, a craque de badminton prefere não embandeirar em arco e trilhar um percurso com passos firmes. ‘Às vezes questiono se serei capaz, mas aí entra a parte do conhecimento. Eu quero saber não pela nota mas porque mais tarde vou precisar de saber aquilo e tenho medo que quando esse dia chegar eu não esteja preparada’. Quanto a área de especialização, o tempo será o melhor conselheiro. ‘Só a partir de agora, no quarto ano, começamos a rodar pelas especialidades e a ter noção do que queremos’.

 

 

 

A honestidade que transpira numa conversa decorrida em pose de chinês no chão do pavilhão, entre um jogo e outro, descortinam uma rapariga com sensatez acima da média. ‘Eu nunca fui a aluna que tirava 18 e 20 a tudo. Tirava notas okays e honestamente sem estatuto [de atleta de alto rendimento] não entrava, por menos de um valor. Também porque sempre tive muitos torneios e tinha de faltar às aulas, mas sempre me esforcei’. A competitividade nas pautas é saudável e, tal como no campo, o grande objetivo é nunca defraudar as suas próprias metas. ‘Eu comparava as notas com os meus colegas, acho que a maior parte dos estudantes faz isso. Mas não pensava que tinha de ter a melhor nota, se não tivesse a melhor nota – e isso era muito frequente porque não era das melhores da turma – pensava em melhorar numa próxima, mas sempre por mim e não para ser melhor que os outros’.

 

Estágio em Itália

Os tempos de pandemia impõem respeito, mas não a assustam, ou não tivesse ela escolhido a área da saúde para fazer vida. Planeia seguir para Itália no próximo verão para fazer um estágio e, se não houver impedimento que lhe seja exterior, é isso que fará. A família estará lá para a ver voar, não fosse o pai um homem ligado aos aviões.

 

A dedicação e a proposta para orientar os treinos na NOVA

 

Em Braga, a dupla Chang deixou claro para o que ia na abertura da época 20/21.  Determinação e cumplicidade culminaram no ouro que ajudaram a NOVA a conquistar no badminton. João, o irmão caloiro, está agora a iniciar o seu percurso nas competições universitárias. ‘A minha irmã foi-me falando para eu participar nos CNU desde o meu décimo ano. É sempre bom ter alguma coisa para desanuviar’, disse, sem se fazer rogado nas ambições. ‘O que é preciso para conseguir ir a uma universíada?’. Tal como o caçula, Mariana tem muita vontade de marcar presença nos agora denominados Jogos Mundiais Universitários. Seria o culminar do percurso que começou há quatro épocas, em que se registam três medalhas de ouro e três medalhas de prata nos nacionais e um quinto lugar nos Jogos Europeus Universitários realizados em Coimbra. ‘Gosto de participar para ganhar andamento, ritmo e estar preparada para o resto das competições’, disse, mesmo antes de sair para mais uma partida em Gualtar, no Minho. A sua perseverança leva a que seja notada e na NOVA abriu-se outra porta, a de treinadora. ‘Precisávamos de alguém para conduzir os treinos e orientar os colegas e ela disse que sim, que em termos financeiros era uma ajuda’, contou Daniel Moura, do Gabinete de Desporto da NOVA. ‘O feedback que tenho até agora é positivo. Dizem-me que aprenderam mais em duas semanas com ela do que em toda a vida que andaram a jogar badminton. Era isto que estávamos à procura e enquanto a Mariana conseguir é uma parceria que nos interessa manter’, disse ainda, sem deixar de frisar o exemplo que a atleta dá a todos. ‘Consegue conciliar o percurso desportivo com o académico, é uma pessoa responsável e proativa na melhoria de condições para a prática da modalidade, educada e muito prestável’.

 

 

 

Fora dos pavilhões dos campus, o momento competitivo que mais a marcou foi o campeonato do mundo de juniores em 2016, onde fez dupla com Miguel Rocha, que representa a Universidade de Lisboa nas competições universitárias. ‘Foi o culminar dos meus anos de juniores e consegui chegar ao top16 em par misto’, referiu a badmintonista, sentimento partilhado pelo seu parceiro de então. ‘Foi uma experiência marcante, totalmente diferente do que estávamos habituados. Já fazia pares com ela há alguns anos e foi muito bom ter chegado a esse nível, a nossa dinâmica melhorou bastante. A Mariana é uma pessoa com uma personalidade muito forte, gosta muito da modalidade e quando faz algo gosta de fazer bem e não fazer por fazer’. E um defeito que se possa apontar assim de caras? O mais generoso de todos: ‘às vezes é um pouco teimosa!’.

 

Como outros, Mariana vê a prática de desporto como um dos melhores escapes da vida, que lhe traz aprendizagens transversais. ‘O jogo ensinou-me muito a lidar comigo. Se estou no campo e estou a perder é preciso controlar os sentimentos de frustração, ter controlo e uma atitude mais positiva. Isso acaba por me ajudar em termos pessoais, noutras situações da vida’.

 

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